quarta-feira, 20 de março de 2013

… de boas leituras.


UmCultura. Tudo que é preciso saber, de Dietrich Schwanitz. Já comprei três ou quatro, porque acabo sempre por dá-lo a alguém. Livro que se pode ir lendo, mas que se lê com a fluidez de um romance! Recomendo-o a todos os meus alunos do Secundário e já recomendei a compra pela nossa Biblioteca Escolar.












Dois – Em Casa, de Bill Bryson. Uma delícia de ler. E de reler. E, de cada vez, encontrar coisas novas.


TrêsAo Fim da Memória, de Fernanda de Castro. Dois volumes de memórias que são, sobretudo, uma viagem pelo século XX. Uma viagem muito pessoal, é certo, mas cheia de encanto e das pequenas recordações que a fazem única.











Quatro – Um blogue -Dois Dedos de Conversa - cheio de sensatez e de humanidade. E também de música e de coisas do dia-a-dia, incluindo o cão.

Cinco – Outro blogue -E Educação do Meu Umbigo - com informação sempre em cima do acontecimento, no que à educação diz respeito. Pode discordar-se (acontece-me muita vez) mas não se fica indiferente. Aquilo é que é serviço público!

segunda-feira, 18 de março de 2013

… de coisas que todos os pais e mães deviam ensinar aos seus filhos desde tenra idade.


Um – acatar autoridade justa e razoável. Se se perguntar a um professor qual o principal problema com que se debate na sala de aula, o mais provável será que ele responda apontando para o facto de que os seus alunos não reconhecem autoridade a ninguém. Isto acontece porque eles começam por não reconhecer autoridade aos pais. Ora, uma criança precisa de limites para crescer em segurança, e esses limites são a autoridade exercida pelos pais. Muitos dos pais, sobretudo dos jovens pais, não conseguem exercer autoridade. Têm medo, não se sentem seguros, querem ser «amigos» dos filhos – e isso nunca se deve fazer. Um pai, uma mãe, um professor não podem ser «amigos» de uma criança, porque a amizade é uma relação entre iguais e um adulto não pode ter esse tipo de relação com uma criança que está à sua guarda.

Dois – controlar-se, definindo os limites entre público e privado. Expresso na velha frase «Trabalho é trabalho, conhaque é conhaque.» este é um princípio básico da vida em sociedade. Não se fala na escola como se fala em casa ou na rua. Não se diz tudo o que nos passa pela cabeça. Não se escreve como se fala. Não vai vestido da mesma maneira para a escola e para a praia. Isto pode parecer lógico demais para ser mencionada, mas a verdade é que todos os professores se deparam todos os dias com jovens que não têm qualquer filtro entre o que lhes passa pela cabeça e o que sai pela boca.

Três – pôr-se no lugar do outro. Antes de fazer seja o que for e seja a quem for, é importante ser capaz de prever as consequências desse acto. Pensar «Como me sentiria eu no lugar dele(a)?» é essencial para fazer essa previsão. A «crueldade natural» das crianças e dos adolescentes pode ser muito atenuada com esta prática. Nenhum de nós gosta de sofrer – não é difícil ensinar a uma criança que, se ela não gosta de sofrer, os outros também não gostam.

Quatro – ter um sistema de valores. Saber o que é certo e o que é errado. Um sistema de valores tem que ser claro. As crianças aprendem-no facilmente se for claro e lógico. Uma acção errada tem sempre que ser castigada e uma certa tem sempre que ser elogiada. Um sistema de valores claro aprendido em casa fica para sempre como estrutura. E nunca um pai ou mãe se devem esquecer de que o exemplo é o melhor professor.

Cinco – pensar. É essencial ensinar as crianças a pensar. Não lhes dar todas as respostas de bandeja mas devolver-lhes a pergunta - «O que é tu achas que é?» - ensiná-las a procurar, procurar com elas, estudar com elas novas perguntas. Dá trabalho, mas ter filhos é isso mesmo.

Desta vez, são duas mãos cheias de letras!


quarta-feira, 13 de março de 2013

… de quezílias sem som nem dom em que se ocupam os professores, em vez de pensarem no que verdadeiramente importa


Uma – a minha disciplina é mais importante do que a tua.
É uma dor de alma assistir a estas trocas de alfinetes! Como se não fossem todas importantes. Como se uma se pudesse substituir a outra. Como se não fosse necessário ler bem e interpretar o que se lê, ou escrever com propriedade, quando se estuda Ciências exactas. Como se quem estuda Humanidades não precisasse de saber fazer contas ou dos princípios básicos das Ciências. E por aí fora…

Duas – o meu nível de ensino dá mais trabalho do que o teu.
Deus lhes acudisse, que bem precisam, aos que se empenham nesta «batalha». Ensinar é ensinar. Se, pontualmente, há trabalho acrescido, adiante será compensado com trabalho decrescido. Ensinar a estar numa sala de aula, a respeitar os outros, a falar na sua vez é menos importante do que ensinar a ler e a escrever? Lidar com uma turma de 30 miúdos de seis anos e «civilizá-los», ser responsável por eles, passar, se calhar, mais tempo com eles do que os próprios pais é mais fácil do que enfrentar uma turma de 30 adolescentes que querem ser respeitados como adultos ao mesmo tempo que querem ser desculpados como crianças? Sinceramente vos digo que, entre as duas realidades, venha o diabo e escolha!

Três – os mais velhos ganham demasiado, têm vida fácil e trabalham pouco.
Os «mais velhos» de hoje já foram os «mais novos». Foram colocados tarde e a más horas, para que o Ministério poupasse uns dinheiros. Trabalharam em escolas a cair, em lugares que nem sabiam que existiam, andaram dez ou vinte anos com a casa às costas, puseram em práticas todas as experiências dementes de Ministros e Ministérios desejosos de mostrar obra, tiveram a sua quota de alunos difíceis, de cursos sem manual, sem programas, sem materiais. Agora têm para cima de 50 anos, vinte e muitos ou trinta de serviço. Passaram das «fases» aos «escalões» em três ou quatro versões, perdendo sempre tempo de serviço. Os «mais novos» deviam compreender, sem ser preciso explicar-lhes, que todos os «benefícios» de que os mais velhos agora gozam serão os seus benefícios quando a leles tocar ser os «mais velhos», e que tudo que agora lhes for tirado, a si mesmos no futuro o tiram.

Quatro – quem lecciona profissionais e CEF não faz nenhum.
É a n-ésima experiência. Quem a lecciona trabalha, claro, e trabalha muito. Muitas das disciplinas destes cursos não têm manual, poucos materiais há, e é frequente os alunos serem difíceis, com um historial escolar complicado (e o familiar, muitas vezes, ainda pior). Há disciplinas técnicas que são entregues a professores que não são técnicos e que têm que se virar do avesso para dar aquelas aulas. É verdade que, no último ano do curso, os alunos entram em estágio em Abril ou Maio, mas os professores estão de rastos, garanto. Sem contar que é raro que alguém tenha apenas destes cursos, pelo que continuam a ter aulas – e um horário que fica, de repente, cheio de buracos. E também sem contar que muitos ficam como acompanhantes de estágio, o que não é pêra doce, pois o aluno acompanhado pode estar a fazer estágio relativamente longe.

Cinco – ai, coitadinhos dos meninos!
Coitado, dizem os nossos irmãos brasileiros, é filho de rato que nasce pelado! Não é com «coitadinhices» que ajudamos os nossos alunos. Igualdade de oportunidades não quer dizer terem todos o mesmo resultado. Não é exigindo pouco que os ajudamos. Não podemos manter os muito bons na mediocridade para não ofender os medíocres. Igualdade de oportunidades quer dizer que ninguém deixará de atingir o seu melhor por falta de dinheiro, ou porque mora longe. Nada é tão fascista como exigir pouco dos pobres porque são pobres.

... de pecados capitais da classe docente


Começo por explicitar que atribuo estes «pecados» à classe e não a qualquer dos seus elementos em particular. Muitos estarão inocentes de vários destes «pecados» e muitos até de todos. Como classe, constatam-se todos os dias.

Um – Falta de espírito corporativo. Apesar de serem frequentemente acusados de corporativismo, os professores não têm espírito de classe. Os maiores inimigos dos professores são os professores. A desastrosa política educativa dos dois últimos governos, acrescentada às já de si desastrosas políticas educativas anteriores, só exacerbou o que já era mau. Hoje mais do que nunca, na sala de professores todos estão contra todos. Claro que isto foi encorajado ao longo de décadas por um poder a quem sempre interessou dividir para melhor explorar e achincalhar.

Dois – Falta de capacidade para trabalhar em equipa. Este segundo pecado entronca no primeiro. Fruto, talvez, do pecado anterior e de décadas de revisões e reformas curriculares feitas com os pés. É verdade que os programas parecem ter sido cuidadosamente planeados para impedir qual quer resquício de interdisciplinaridade, mas o facto é que os professores portugueses parecem incapazes de trabalhar em grupo, como sabe todo e qualquer colega que já tenha tentado. Há sempre uma desculpa para um colega recusar um trabalho conjunto – ou não se adequa à planificação, ou não está no programa, ou não há horas disponíveis, ou a turma não tem perfil… As raras e honrosas excepções só confirmam a regra.

Três – Tendência para a acomodação. Talvez como defesa, porque os inícios de carreira sempre foram acidentados, os professores sempre foram atirados hoje para França, amanhã para Bragança, com os filhos e os tarecos, os professores tendem para a rotina. Claro que a tutela sempre encorajou isto, fazendo um tal reboliço de reformas e alterações de legislação e mudanças de programas a meio da jogada que a rotina se tornou quase a única forma de sobreviver. E à medida que se envelhece, é cada vez mais difícil sair da rotina.

Quatro – Estreiteza de vistas, que advém do anterior. É verdade que actualmente os professores têm a vida tão sobrecarregada de reuniões imbecilizantes e papelada estúpida, que pouco tempo lhes resta, mas este problema vem de longe. Há uma quantidade grande de professores que parece de tal forma acorrentada ao programa que fora dele nada existe. Em sua defesa, alegam frequentemente que até gostariam de falar disto e mais daquilo e daqueloutro, mas infelizmente, o programa não deixa. Não se exigiria dedicação sacerdotal, mas um bocadinho mais de… autonomia?

Cinco – Pouca exigência. Os professores aceitam e põem em prática (ou, pelo menos tentam) tudo o que lhes mandam. Programas absurdos, critérios de avaliação idiotas, Acordos Ortográficos, legislação ilegal, o que vier do Ministério, os professores cumprem. Até os há capazes de retorcer ainda mais o que já nasceu torto. As escolas são frias e desconfortáveis, chove nelas como na rua, o mobiliário escolar foi desenhado por sádicos, a comida das cantinas não tenta nem o mais esfaimado, o Governo até o tipo de letra que se usa quer determinar, e os professores comem e calam. E assim se deixaram transformar num grupo profissional que parece só ser capaz de lutar por salários. Que, é verdade, são indignos de profissionais a quem tanto se exige, mas nem são, neste momento, o problema mais premente.