Uma – a minha disciplina é mais importante do que a tua.
É uma dor de alma assistir a estas trocas de alfinetes! Como
se não fossem todas importantes. Como se uma se pudesse substituir a outra.
Como se não fosse necessário ler bem e interpretar o que se lê, ou escrever com
propriedade, quando se estuda Ciências exactas. Como se quem estuda Humanidades
não precisasse de saber fazer contas ou dos princípios básicos das Ciências. E
por aí fora…
Duas – o meu nível de ensino dá mais trabalho do que o teu.
Deus lhes acudisse, que bem precisam, aos que se empenham
nesta «batalha». Ensinar é ensinar. Se, pontualmente, há trabalho acrescido,
adiante será compensado com trabalho decrescido. Ensinar a estar numa sala de
aula, a respeitar os outros, a falar na sua vez é menos importante do que
ensinar a ler e a escrever? Lidar com uma turma de 30 miúdos de seis anos e «civilizá-los»,
ser responsável por eles, passar, se calhar, mais tempo com eles do que os próprios
pais é mais fácil do que enfrentar uma turma de 30 adolescentes que querem ser
respeitados como adultos ao mesmo tempo que querem ser desculpados como
crianças? Sinceramente vos digo que, entre as duas realidades, venha o diabo e
escolha!
Três – os mais velhos ganham demasiado, têm vida fácil e
trabalham pouco.
Os «mais velhos» de hoje já foram os «mais novos». Foram
colocados tarde e a más horas, para que o Ministério poupasse uns dinheiros.
Trabalharam em escolas a cair, em lugares que nem sabiam que existiam, andaram
dez ou vinte anos com a casa às costas, puseram em práticas todas as
experiências dementes de Ministros e Ministérios desejosos de mostrar obra,
tiveram a sua quota de alunos difíceis, de cursos sem manual, sem programas,
sem materiais. Agora têm para cima de 50 anos, vinte e muitos ou trinta de
serviço. Passaram das «fases» aos «escalões» em três ou quatro versões,
perdendo sempre tempo de serviço. Os «mais novos» deviam compreender, sem ser
preciso explicar-lhes, que todos os «benefícios» de que os mais velhos agora
gozam serão os seus benefícios quando a leles tocar ser os «mais velhos», e que
tudo que agora lhes for tirado, a si mesmos no futuro o tiram.
Quatro – quem lecciona profissionais e CEF não faz nenhum.
É a n-ésima experiência. Quem a lecciona trabalha, claro, e
trabalha muito. Muitas das disciplinas destes cursos não têm manual, poucos materiais
há, e é frequente os alunos serem difíceis, com um historial escolar complicado
(e o familiar, muitas vezes, ainda pior). Há disciplinas técnicas que são
entregues a professores que não são técnicos e que têm que se virar do avesso
para dar aquelas aulas. É verdade que, no último ano do curso, os alunos entram
em estágio em Abril ou Maio, mas os professores estão de rastos, garanto. Sem
contar que é raro que alguém tenha apenas destes cursos, pelo que continuam a
ter aulas – e um horário que fica, de repente, cheio de buracos. E também sem
contar que muitos ficam como acompanhantes de estágio, o que não é pêra doce,
pois o aluno acompanhado pode estar a fazer estágio relativamente longe.
Cinco – ai, coitadinhos dos meninos!
Coitado, dizem os nossos irmãos brasileiros, é filho de rato
que nasce pelado! Não é com «coitadinhices» que ajudamos os nossos alunos. Igualdade
de oportunidades não quer dizer terem todos o mesmo resultado. Não é exigindo
pouco que os ajudamos. Não podemos manter os muito bons na mediocridade para
não ofender os medíocres. Igualdade de oportunidades quer dizer que ninguém
deixará de atingir o seu melhor por falta de dinheiro, ou porque mora longe.
Nada é tão fascista como exigir pouco dos pobres porque são pobres.
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