quarta-feira, 13 de março de 2013

… de quezílias sem som nem dom em que se ocupam os professores, em vez de pensarem no que verdadeiramente importa


Uma – a minha disciplina é mais importante do que a tua.
É uma dor de alma assistir a estas trocas de alfinetes! Como se não fossem todas importantes. Como se uma se pudesse substituir a outra. Como se não fosse necessário ler bem e interpretar o que se lê, ou escrever com propriedade, quando se estuda Ciências exactas. Como se quem estuda Humanidades não precisasse de saber fazer contas ou dos princípios básicos das Ciências. E por aí fora…

Duas – o meu nível de ensino dá mais trabalho do que o teu.
Deus lhes acudisse, que bem precisam, aos que se empenham nesta «batalha». Ensinar é ensinar. Se, pontualmente, há trabalho acrescido, adiante será compensado com trabalho decrescido. Ensinar a estar numa sala de aula, a respeitar os outros, a falar na sua vez é menos importante do que ensinar a ler e a escrever? Lidar com uma turma de 30 miúdos de seis anos e «civilizá-los», ser responsável por eles, passar, se calhar, mais tempo com eles do que os próprios pais é mais fácil do que enfrentar uma turma de 30 adolescentes que querem ser respeitados como adultos ao mesmo tempo que querem ser desculpados como crianças? Sinceramente vos digo que, entre as duas realidades, venha o diabo e escolha!

Três – os mais velhos ganham demasiado, têm vida fácil e trabalham pouco.
Os «mais velhos» de hoje já foram os «mais novos». Foram colocados tarde e a más horas, para que o Ministério poupasse uns dinheiros. Trabalharam em escolas a cair, em lugares que nem sabiam que existiam, andaram dez ou vinte anos com a casa às costas, puseram em práticas todas as experiências dementes de Ministros e Ministérios desejosos de mostrar obra, tiveram a sua quota de alunos difíceis, de cursos sem manual, sem programas, sem materiais. Agora têm para cima de 50 anos, vinte e muitos ou trinta de serviço. Passaram das «fases» aos «escalões» em três ou quatro versões, perdendo sempre tempo de serviço. Os «mais novos» deviam compreender, sem ser preciso explicar-lhes, que todos os «benefícios» de que os mais velhos agora gozam serão os seus benefícios quando a leles tocar ser os «mais velhos», e que tudo que agora lhes for tirado, a si mesmos no futuro o tiram.

Quatro – quem lecciona profissionais e CEF não faz nenhum.
É a n-ésima experiência. Quem a lecciona trabalha, claro, e trabalha muito. Muitas das disciplinas destes cursos não têm manual, poucos materiais há, e é frequente os alunos serem difíceis, com um historial escolar complicado (e o familiar, muitas vezes, ainda pior). Há disciplinas técnicas que são entregues a professores que não são técnicos e que têm que se virar do avesso para dar aquelas aulas. É verdade que, no último ano do curso, os alunos entram em estágio em Abril ou Maio, mas os professores estão de rastos, garanto. Sem contar que é raro que alguém tenha apenas destes cursos, pelo que continuam a ter aulas – e um horário que fica, de repente, cheio de buracos. E também sem contar que muitos ficam como acompanhantes de estágio, o que não é pêra doce, pois o aluno acompanhado pode estar a fazer estágio relativamente longe.

Cinco – ai, coitadinhos dos meninos!
Coitado, dizem os nossos irmãos brasileiros, é filho de rato que nasce pelado! Não é com «coitadinhices» que ajudamos os nossos alunos. Igualdade de oportunidades não quer dizer terem todos o mesmo resultado. Não é exigindo pouco que os ajudamos. Não podemos manter os muito bons na mediocridade para não ofender os medíocres. Igualdade de oportunidades quer dizer que ninguém deixará de atingir o seu melhor por falta de dinheiro, ou porque mora longe. Nada é tão fascista como exigir pouco dos pobres porque são pobres.

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