quarta-feira, 13 de março de 2013

... de pecados capitais da classe docente


Começo por explicitar que atribuo estes «pecados» à classe e não a qualquer dos seus elementos em particular. Muitos estarão inocentes de vários destes «pecados» e muitos até de todos. Como classe, constatam-se todos os dias.

Um – Falta de espírito corporativo. Apesar de serem frequentemente acusados de corporativismo, os professores não têm espírito de classe. Os maiores inimigos dos professores são os professores. A desastrosa política educativa dos dois últimos governos, acrescentada às já de si desastrosas políticas educativas anteriores, só exacerbou o que já era mau. Hoje mais do que nunca, na sala de professores todos estão contra todos. Claro que isto foi encorajado ao longo de décadas por um poder a quem sempre interessou dividir para melhor explorar e achincalhar.

Dois – Falta de capacidade para trabalhar em equipa. Este segundo pecado entronca no primeiro. Fruto, talvez, do pecado anterior e de décadas de revisões e reformas curriculares feitas com os pés. É verdade que os programas parecem ter sido cuidadosamente planeados para impedir qual quer resquício de interdisciplinaridade, mas o facto é que os professores portugueses parecem incapazes de trabalhar em grupo, como sabe todo e qualquer colega que já tenha tentado. Há sempre uma desculpa para um colega recusar um trabalho conjunto – ou não se adequa à planificação, ou não está no programa, ou não há horas disponíveis, ou a turma não tem perfil… As raras e honrosas excepções só confirmam a regra.

Três – Tendência para a acomodação. Talvez como defesa, porque os inícios de carreira sempre foram acidentados, os professores sempre foram atirados hoje para França, amanhã para Bragança, com os filhos e os tarecos, os professores tendem para a rotina. Claro que a tutela sempre encorajou isto, fazendo um tal reboliço de reformas e alterações de legislação e mudanças de programas a meio da jogada que a rotina se tornou quase a única forma de sobreviver. E à medida que se envelhece, é cada vez mais difícil sair da rotina.

Quatro – Estreiteza de vistas, que advém do anterior. É verdade que actualmente os professores têm a vida tão sobrecarregada de reuniões imbecilizantes e papelada estúpida, que pouco tempo lhes resta, mas este problema vem de longe. Há uma quantidade grande de professores que parece de tal forma acorrentada ao programa que fora dele nada existe. Em sua defesa, alegam frequentemente que até gostariam de falar disto e mais daquilo e daqueloutro, mas infelizmente, o programa não deixa. Não se exigiria dedicação sacerdotal, mas um bocadinho mais de… autonomia?

Cinco – Pouca exigência. Os professores aceitam e põem em prática (ou, pelo menos tentam) tudo o que lhes mandam. Programas absurdos, critérios de avaliação idiotas, Acordos Ortográficos, legislação ilegal, o que vier do Ministério, os professores cumprem. Até os há capazes de retorcer ainda mais o que já nasceu torto. As escolas são frias e desconfortáveis, chove nelas como na rua, o mobiliário escolar foi desenhado por sádicos, a comida das cantinas não tenta nem o mais esfaimado, o Governo até o tipo de letra que se usa quer determinar, e os professores comem e calam. E assim se deixaram transformar num grupo profissional que parece só ser capaz de lutar por salários. Que, é verdade, são indignos de profissionais a quem tanto se exige, mas nem são, neste momento, o problema mais premente.

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